Vicente Alves do Ó

Fotografia: Vitorino Coragem.

 

 

 

 

 

 

 

Vicente Alves do Ó nasceu em 1972, na cidade de Setúbal. É argumentista e realizador de cinema. Entre outros, escreveu e realizou os filmes “Florbela” e “O Amor é lindo porque sim!”. Como argumentista trabalhou com Ruy Guerra, Eduardo Guedes, Solveig Nordlund e António da Cunha Telles. Escreveu dois romances e assinou o texto e encenação da peça sobre o António Variações – “As Variações, de António”. Está prestes a lançar a sua 4ª longa-metragem sobre a vida do poeta Al Berto.

 

Bom dia, Vicente. Foste um dos primeiros a embarcar nesta aventura Flanzine, em 2013, com o número de estreia: MALA. No teu texto – Ida e Volta -, um diálogo breve entre dois personagens que poderia ser uma cena de um filme, Jaime prepara-se para deixar tudo para trás e ir. Quando começou a tua viagem?

Confesso que já não me lembro.  Penso que foi um contacto teu, pelo facebook, onde me ofereceste um bilhete para fazer a viagem contigo e mais uns malucos que achavam ser possível revisitar esta ideia peregrina, selvagem e literária de fazer um fanzine. A escrita anda sempre comigo, como andam os pés e as pernas, os braços, a cabeça, a língua, como andam os olhos que filmam, ou seja, ando emaranhado de palavras desde que me conheço. Oficialmente, como no bilhete de identidade, tenho sempre uma data presente — 1991.  Tinha 19 anos. Comecei por poemas e textos dramáticos e li-os em voz alta numa capela diante duma plateia de gente onde se encontravam duas pessoas que agora estão no meu novo filme: o poeta Al Berto e o meu irmão João Maria. Acho que a escrita é uma espécie de vício que nos atravessa mesmo quando não escrevemos. Na Flanzine, andei pela cena de filme, pelo texto, pelo poema, fui onde me interessava esticar — deitado — diante do sol — porque a minha escrita sempre foi criada diante do sol — ou como se a palavra fosse necessária para fazer sombra. É isso. A palavra existe para fazer a sombra de que precisamos quando estamos encadeados com tanta luz. É preciso escrever para aceitar a fabulosa mecânica da existência. Depois faço filmes onde falo de poetas, essas cabeças em chamas – como diria ainda outro – que nos queimam por dentro e por fora. No fundo, é tudo um papel que arde, aliás, só por isso faz sentido que a escrita seja ideal enquanto papel, porque a escrita tem de arder. Escrevi dois livros porque me apeteceu, não porque os quisesse ler, mas porque faziam parte da minha história e a nossa história ainda é a melhor coisa que temos para contar. Agora estreio filmes e um dia ainda vou ter coragem de escrever um livro de poemas. Até lá, coleciono umas frases, umas ideias, vou construindo um cavalo. Porque todos os livros de poemas que valem a pena são cavalos. Ou correm ou não correm e se um poema não corre, não é um poema.

Dizes que a palavra serve para fazer sombra. É provável que nunca se tenham escrito tantas palavras como no presente, com todas as ferramentas comunicacionais que a tecnologia nos trouxe. Que luz é esta que nos impele a tal necessidade?

A luz que se acende todos os dias. Nunca se viveu tanto, também. Nunca se experimentou tanto, viajou tanto, nunca se foi tanta coisa ao mesmo tempo. Essa luz que nos permite ver muito, observar tudo, achar mais ainda, como se tudo fosse nosso e estivesse ao nosso dispor. A palavra é um vício — um vírus — uma necessidade e, acima de tudo, uma condição. Somos mais completos com ela – com a realidade que ela nos permite aceitar — como a morte, por exemplo. Aceitamos melhor a morte usando a palavra. E não sendo tão antigos quanto a luz, é na palavra que nos escondemos. No fundo, tudo começa e acaba com a mortalidade. Andamos há que tempos a tentar contorná-la. Andamos doidos da vida a resistir-lhe. É que a luz não nos deixa muito espaço. O único espaço que nos sobra é escrever. E amar, se tivermos sorte.

O amor é um elemento fundamental nas tuas criações?

O amor é a criação.

É essa a tua religião? 

Se religião se entender como amor e criação – sim. Se bem que a melhor maneira de definir religião é através da acção. Somos profundamente religiosos sempre que agimos. As pessoas mais religiosas que conheço são essas — as que se movem. Seja por alguém, pelos outros, por uma ideia. Essa tentativa de movimento que se pretende viva, é uma profunda ideia religiosa.

Mas, num mundo que se move numa velocidade vertiginosa, não consideras que a imobilidade possa ser um gesto religioso? Uma procura interior da sua práxis?

Acho que a imobilidade é uma espécie de morte continuada. Não é sequer reacção ao presente, porque o presente sempre se confundiu com a acção do tempo. Por isso a ideia de religião é uma coisa anterior, muito anterior e muito interior.

Quando te lanças a universos como o da Florbela, Al Berto ou do Variações, és atraído pela sua luz ou sombra(s)?

Sou atraído pela acção. É isso que me interessa. Acção contra o tempo, contra a morte, contra os outros, contra a depressão, contra o desamor, contra a vida, contra si mesmo. Essa acção que define. São os três — e mais haveriam para trabalhar — que me escolhem ou que me procuram porque é sobre esse movimento religioso diante de tudo que eles habitam.

Como é sobreviver em Portugal nessa polivalência, ora como realizador, ora como argumentista, ora como encenador, ora como escritor? É bem recebida essa diversidade?

A polivalência não é uma necessidade ou sobrevivência, é um apelo. São todas as vozes com que trabalho para expressar ideias e vontades. Cada uma delas tem um heterónimo, se assim posso dizer. Aliás, não há povo mais multiplicado, dentro de si mesmo, que o português. Ser uma ou muitas coisas faz parte da nossa carga genética. É uma condição. Se esta diversidade é bem recebida?  Nem por isso — temos esta fatídica realidade provinciana de continuamente julgar os outros como fomos julgados durante 500 anos por uma igreja inquisidora, portanto, é difícil existir para lá do que nos é  atribuído à nascença. Na cabeça das pessoas — especialmente nalguma imprensa — como só me “descobriram” enquanto argumentista, serei sempre um argumentista que faz outras coisas e nunca serei as outras coisas. O que não deixa de ser curioso, porque a imprensa descobriu-me tarde. Se lá estivesse no primeiro momento teria ouvido um poema e como tal diria — o poeta X realizou um filme. Mas não estava e, em Portugal, só existimos quando a imprensa nos descobre.

Um problema de validação que torna o país ainda mais pequeno?

Sim. Pequeno e sem ambição. Até porque ambição é uma palavra proibida em Portugal.

A vaga de empreendedorismo não é fruto dessa ambição? Ou referias-te apenas às artes?

Falava em relação às artes, sim. Empreendedorismo e ambição, são termos demasiado económicos para os artistas nacionais. O sucesso só pode existir mediante a validação de outros artistas e, mesmo assim, apenas alguns podem desejar esse lugar. Tudo o resto, como a surpreendente popularidade, é o diabo. Coisa medonha. O artista português lida mal com a ideia pública da sua arte – como se isso a menorizasse.

Nesse sentido, achas que deviam funcionar de forma mais liberalizada? 

Acho que as cabeças que a fazem deviam ser tão livres como a arte que apregoam fazer.

Se a arte liberta, onde se prende a cabeça dos artistas?

No sentido mais pequeno da existência: na validação. A validação ocupa mais espaço do que a arte. O efeito e a provocação ocupam mais espaço que a arte. A vaidade. E pior do que tudo, o desprezo. A classe artística portuguesa é, na sua maioria, duma desunião tremenda, o que não deixa de ser caricato e compreensível. Por norma as pessoas agem pior quando têm que assegurar a sua sobrevivência. E num país com pouco dinheiro, luta-se todos os dias pela sobrevivência, nem que para isso se difame e enxovalhe os outros. Efeitos dum país pobre e com fome. Como dizia uma conhecida minha: este país só começou a comer bife há muito pouco tempo.

Para ti o que é mais importante que tudo o resto?

A verdade. Tudo o que se faz com verdade encontra sempre um lugar certo.

Mas concordas que há vários lugares certos?

Claro que concordo. E sabes, quando é feito com verdade, não importa o lugar, porque se sente — e sentir ainda é o sentido mais apurado que temos.

Será o sentir algo que nos aproxima mais do nosso carácter animal?

Não sei se é animal — essa coisa tem sempre uma leitura primitiva. Mas que nos salvamos sempre no sentir, salvamos.

Acreditas portanto numa redenção?

Claro. Sempre.

E projectos novos, algo que possas revelar?

Estrear o Al Berto. Filmar em Setembro, e ando a escrever um filme sobre o Amadeo de Sousa Cardoso.

Quanto tempo precisas para a escrita de um filme?

Depende se é uma ideia original ou um trabalho como o Florbela ou o Al Berto que necessitam muita pesquisa. Mas no período de um ano consigo começar e acabar por inteiro um argumento.

Será assim com o Amadeo?

O trabalho no Amadeo começou em Novembro de 2016. Foram 7 meses em volta de tudo. E ainda me falta muita coisa, mas já começo a escrevinhar umas coisas.

Nos intervalos desta conversa, viajaste até Paris. Foste em busca da luz ou do pintor?

Fui em busca do Pintor. Da vida. Do que ele sentiu e viveu, do que viu. Fui em busca dele. A luz que ele pintou foi sempre a luz de Manhufe.

Que tema gostavas de ver ser preparado na cozinha da Flanzine?

Alma.

Há alguma pergunta que gostavas que te tivesse feito?

Isso agora…

…não lembra nem ao Diabo, não é?

Muito menos a Deus.

Desejo-te o maior sucesso para esses projectos em curso e agradeço a conversa. E fica aqui um até já.

Obrigado eu, querido.
Abraços

Julho 2017

*Vitorino Coragem é fotógrafo e jornalista. Formado em Sociologia, trabalhou como redactor no jornal A Capital, Diário de Notícias, Folha de São Paulo e La Opinión de Granada. O seu registo fotográfico privilegia o corpo e a expressão corporal. Maria Bicicleta, Light and Sea e Em palco são os seus projectos mais recentes. Faz a cobertura de eventos culturais, especialmente nas áreas da poesia e da performance. Colabora frequentemente com companhias de teatro e festivais literários. É um activista do uso da bicicleta na cidade de Lisboa.

Vicente Alves do Ó – Flanzine

Vicente Alves do Ó

Fotografia: Vitorino Coragem.

 

 

 

 

 

 

 

Vicente Alves do Ó nasceu em 1972, na cidade de Setúbal. É argumentista e realizador de cinema. Entre outros, escreveu e realizou os filmes “Florbela” e “O Amor é lindo porque sim!”. Como argumentista trabalhou com Ruy Guerra, Eduardo Guedes, Solveig Nordlund e António da Cunha Telles. Escreveu dois romances e assinou o texto e encenação da peça sobre o António Variações – “As Variações, de António”. Está prestes a lançar a sua 4ª longa-metragem sobre a vida do poeta Al Berto.

 

Bom dia, Vicente. Foste um dos primeiros a embarcar nesta aventura Flanzine, em 2013, com o número de estreia: MALA. No teu texto – Ida e Volta -, um diálogo breve entre dois personagens que poderia ser uma cena de um filme, Jaime prepara-se para deixar tudo para trás e ir. Quando começou a tua viagem?

Confesso que já não me lembro.  Penso que foi um contacto teu, pelo facebook, onde me ofereceste um bilhete para fazer a viagem contigo e mais uns malucos que achavam ser possível revisitar esta ideia peregrina, selvagem e literária de fazer um fanzine. A escrita anda sempre comigo, como andam os pés e as pernas, os braços, a cabeça, a língua, como andam os olhos que filmam, ou seja, ando emaranhado de palavras desde que me conheço. Oficialmente, como no bilhete de identidade, tenho sempre uma data presente — 1991.  Tinha 19 anos. Comecei por poemas e textos dramáticos e li-os em voz alta numa capela diante duma plateia de gente onde se encontravam duas pessoas que agora estão no meu novo filme: o poeta Al Berto e o meu irmão João Maria. Acho que a escrita é uma espécie de vício que nos atravessa mesmo quando não escrevemos. Na Flanzine, andei pela cena de filme, pelo texto, pelo poema, fui onde me interessava esticar — deitado — diante do sol — porque a minha escrita sempre foi criada diante do sol — ou como se a palavra fosse necessária para fazer sombra. É isso. A palavra existe para fazer a sombra de que precisamos quando estamos encadeados com tanta luz. É preciso escrever para aceitar a fabulosa mecânica da existência. Depois faço filmes onde falo de poetas, essas cabeças em chamas – como diria ainda outro – que nos queimam por dentro e por fora. No fundo, é tudo um papel que arde, aliás, só por isso faz sentido que a escrita seja ideal enquanto papel, porque a escrita tem de arder. Escrevi dois livros porque me apeteceu, não porque os quisesse ler, mas porque faziam parte da minha história e a nossa história ainda é a melhor coisa que temos para contar. Agora estreio filmes e um dia ainda vou ter coragem de escrever um livro de poemas. Até lá, coleciono umas frases, umas ideias, vou construindo um cavalo. Porque todos os livros de poemas que valem a pena são cavalos. Ou correm ou não correm e se um poema não corre, não é um poema.

Dizes que a palavra serve para fazer sombra. É provável que nunca se tenham escrito tantas palavras como no presente, com todas as ferramentas comunicacionais que a tecnologia nos trouxe. Que luz é esta que nos impele a tal necessidade?

A luz que se acende todos os dias. Nunca se viveu tanto, também. Nunca se experimentou tanto, viajou tanto, nunca se foi tanta coisa ao mesmo tempo. Essa luz que nos permite ver muito, observar tudo, achar mais ainda, como se tudo fosse nosso e estivesse ao nosso dispor. A palavra é um vício — um vírus — uma necessidade e, acima de tudo, uma condição. Somos mais completos com ela – com a realidade que ela nos permite aceitar — como a morte, por exemplo. Aceitamos melhor a morte usando a palavra. E não sendo tão antigos quanto a luz, é na palavra que nos escondemos. No fundo, tudo começa e acaba com a mortalidade. Andamos há que tempos a tentar contorná-la. Andamos doidos da vida a resistir-lhe. É que a luz não nos deixa muito espaço. O único espaço que nos sobra é escrever. E amar, se tivermos sorte.

O amor é um elemento fundamental nas tuas criações?

O amor é a criação.

É essa a tua religião? 

Se religião se entender como amor e criação – sim. Se bem que a melhor maneira de definir religião é através da acção. Somos profundamente religiosos sempre que agimos. As pessoas mais religiosas que conheço são essas — as que se movem. Seja por alguém, pelos outros, por uma ideia. Essa tentativa de movimento que se pretende viva, é uma profunda ideia religiosa.

Mas, num mundo que se move numa velocidade vertiginosa, não consideras que a imobilidade possa ser um gesto religioso? Uma procura interior da sua práxis?

Acho que a imobilidade é uma espécie de morte continuada. Não é sequer reacção ao presente, porque o presente sempre se confundiu com a acção do tempo. Por isso a ideia de religião é uma coisa anterior, muito anterior e muito interior.

Quando te lanças a universos como o da Florbela, Al Berto ou do Variações, és atraído pela sua luz ou sombra(s)?

Sou atraído pela acção. É isso que me interessa. Acção contra o tempo, contra a morte, contra os outros, contra a depressão, contra o desamor, contra a vida, contra si mesmo. Essa acção que define. São os três — e mais haveriam para trabalhar — que me escolhem ou que me procuram porque é sobre esse movimento religioso diante de tudo que eles habitam.

Como é sobreviver em Portugal nessa polivalência, ora como realizador, ora como argumentista, ora como encenador, ora como escritor? É bem recebida essa diversidade?

A polivalência não é uma necessidade ou sobrevivência, é um apelo. São todas as vozes com que trabalho para expressar ideias e vontades. Cada uma delas tem um heterónimo, se assim posso dizer. Aliás, não há povo mais multiplicado, dentro de si mesmo, que o português. Ser uma ou muitas coisas faz parte da nossa carga genética. É uma condição. Se esta diversidade é bem recebida?  Nem por isso — temos esta fatídica realidade provinciana de continuamente julgar os outros como fomos julgados durante 500 anos por uma igreja inquisidora, portanto, é difícil existir para lá do que nos é  atribuído à nascença. Na cabeça das pessoas — especialmente nalguma imprensa — como só me “descobriram” enquanto argumentista, serei sempre um argumentista que faz outras coisas e nunca serei as outras coisas. O que não deixa de ser curioso, porque a imprensa descobriu-me tarde. Se lá estivesse no primeiro momento teria ouvido um poema e como tal diria — o poeta X realizou um filme. Mas não estava e, em Portugal, só existimos quando a imprensa nos descobre.

Um problema de validação que torna o país ainda mais pequeno?

Sim. Pequeno e sem ambição. Até porque ambição é uma palavra proibida em Portugal.

A vaga de empreendedorismo não é fruto dessa ambição? Ou referias-te apenas às artes?

Falava em relação às artes, sim. Empreendedorismo e ambição, são termos demasiado económicos para os artistas nacionais. O sucesso só pode existir mediante a validação de outros artistas e, mesmo assim, apenas alguns podem desejar esse lugar. Tudo o resto, como a surpreendente popularidade, é o diabo. Coisa medonha. O artista português lida mal com a ideia pública da sua arte – como se isso a menorizasse.

Nesse sentido, achas que deviam funcionar de forma mais liberalizada? 

Acho que as cabeças que a fazem deviam ser tão livres como a arte que apregoam fazer.

Se a arte liberta, onde se prende a cabeça dos artistas?

No sentido mais pequeno da existência: na validação. A validação ocupa mais espaço do que a arte. O efeito e a provocação ocupam mais espaço que a arte. A vaidade. E pior do que tudo, o desprezo. A classe artística portuguesa é, na sua maioria, duma desunião tremenda, o que não deixa de ser caricato e compreensível. Por norma as pessoas agem pior quando têm que assegurar a sua sobrevivência. E num país com pouco dinheiro, luta-se todos os dias pela sobrevivência, nem que para isso se difame e enxovalhe os outros. Efeitos dum país pobre e com fome. Como dizia uma conhecida minha: este país só começou a comer bife há muito pouco tempo.

Para ti o que é mais importante que tudo o resto?

A verdade. Tudo o que se faz com verdade encontra sempre um lugar certo.

Mas concordas que há vários lugares certos?

Claro que concordo. E sabes, quando é feito com verdade, não importa o lugar, porque se sente — e sentir ainda é o sentido mais apurado que temos.

Será o sentir algo que nos aproxima mais do nosso carácter animal?

Não sei se é animal — essa coisa tem sempre uma leitura primitiva. Mas que nos salvamos sempre no sentir, salvamos.

Acreditas portanto numa redenção?

Claro. Sempre.

E projectos novos, algo que possas revelar?

Estrear o Al Berto. Filmar em Setembro, e ando a escrever um filme sobre o Amadeo de Sousa Cardoso.

Quanto tempo precisas para a escrita de um filme?

Depende se é uma ideia original ou um trabalho como o Florbela ou o Al Berto que necessitam muita pesquisa. Mas no período de um ano consigo começar e acabar por inteiro um argumento.

Será assim com o Amadeo?

O trabalho no Amadeo começou em Novembro de 2016. Foram 7 meses em volta de tudo. E ainda me falta muita coisa, mas já começo a escrevinhar umas coisas.

Nos intervalos desta conversa, viajaste até Paris. Foste em busca da luz ou do pintor?

Fui em busca do Pintor. Da vida. Do que ele sentiu e viveu, do que viu. Fui em busca dele. A luz que ele pintou foi sempre a luz de Manhufe.

Que tema gostavas de ver ser preparado na cozinha da Flanzine?

Alma.

Há alguma pergunta que gostavas que te tivesse feito?

Isso agora…

…não lembra nem ao Diabo, não é?

Muito menos a Deus.

Desejo-te o maior sucesso para esses projectos em curso e agradeço a conversa. E fica aqui um até já.

Obrigado eu, querido.
Abraços

Julho 2017

*Vitorino Coragem é fotógrafo e jornalista. Formado em Sociologia, trabalhou como redactor no jornal A Capital, Diário de Notícias, Folha de São Paulo e La Opinión de Granada. O seu registo fotográfico privilegia o corpo e a expressão corporal. Maria Bicicleta, Light and Sea e Em palco são os seus projectos mais recentes. Faz a cobertura de eventos culturais, especialmente nas áreas da poesia e da performance. Colabora frequentemente com companhias de teatro e festivais literários. É um activista do uso da bicicleta na cidade de Lisboa.